[ Eu ]



"Não tenho medo do mormaço.
Não temo nenhum tipo de ressaca.
Peco pelo excesso,
nunca pela escassez.
E vou vivendo como se tivesse pressa de morrer.
E então, quem determina
as regras do que sinto?
Nunca recebi aviso prévio.
De repente, desamor.
Ah, de repente,
caco de vidro na pele.
E depois, nada.


K.Pedregal

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A Primeira Versão


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Marcelo Panela



[Sexta-feira, Junho 19, 2009]

Degustando a si mesma


Nesses últimos dias tenho tido insônia novamente. A volta de minhas crises. Não são agonizantes como as de dois anos atrás, é verdade. No entanto, é inevitável sentir-me como antes: um fantasma perambulando pela casa às 2 da manhã – mesmo morando sozinha.

Terminei um livro que devorei da primeira vez e depois fiquei com pena de ter sido tão rápido. Ando tendo outras impressões, sensações e identificações com a segunda leitura. Depois de quatro anos, alguma coisa tinha que ter mudado em mim. Sobretudo de um ano pra cá.

Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios foi presente de um amigo querido que me conhece como poucas pessoas. Não sei se a dupla personalidade da protagonista o influenciou para isso. Também não lembro se na época eu vesti a carapuça. Sei que dessa vez me coloquei naqueles dois extremos com uma degustação quase erótica. Esse não é o teor do livro, apesar de haver passagens gostosas nesse sentido. É como se as fases dessa lua aqui agora estivessem mais sob minha compreensão e, por conseqüência, meu controle. Daí a sensação prazerosa.

Talvez seja um dos motivos pelo qual já não sofro com as crises da insônia que me acompanha há anos. A agonia e a depressão se foram com a chegada de um cinismo sob medida e do humor maduro.

Olho-me através de novos olhos.



por Ká * 7:57 PM

Fala, criatura!:

[Terça-feira, Junho 16, 2009]

Ex-traños

De repente, dois estranhos.

Na língua espanhola, o verbo “extrañar” significa sentir falta. Te extraño, diz o amante que sofre com a ausência da amada.
Estranhar, em português, vem de estranho, diferente, desconhecido. Estou te estranhando, diz o amante que não reconhece quem ama por conta de alguma atitude diferente do normal.

De repente, uma coisa está ligada a outra.

“Extrañar” ou “estranhar”, entre duas pessoas que algum dia se amaram e dividiram momentos importantes na vida de ambos, intimidade, cumplicidade, no fundo é a mesma coisa. Sente-se falta da pessoa amada, porque apesar do mesmo rosto, agora não passa de um estranho pelas atitudes diferentes, pelo descaso. Sente-se falta de expressões de afeto que outrora saíam daqueles olhos distantes que agora ignoram nossa presença. É como se aquelas feições antes tão familiares, tão presentes no nosso cotidiano, tivessem sido tomadas por um extraterrestre qualquer. Um alienígena com cinismo digno de um terráqueo.

Não de repente, o amor se liquefaz entre dedos acusatórios e olhares julgadores. E o tempo acaba de liquidar restos dele numa estranheza que não causa mais dor nem nada.

Indiferença quer dizer falta de interesse, que não nos é bom nem mau.

Sem "extrañar" ou "estranhar" o indivíduo, de repente, nunca mais.





por Ká * 1:26 AM

Fala, criatura!:

[Sexta-feira, Junho 12, 2009]

O sorriso

A dor me desperta do sonho, mas a imagem do sorriso na cabeça me faz manter o bom humor durante o dia. Analgésico poderoso.

Afrodisíaco e analgésico, o bom humor nos mantém sãos em meio a furacões. Ou simplesmente nos faz levar a vida da melhor maneira possível: com a habilidade de rir de si mesmo. A idade também nos traz isso. Já vi gente bem madura com a leveza de uma menina de 8 anos de idade e gente muito jovem com 60 anos no semblante, com ares mais pesados do que qualquer ruga.

É isso. Nem todo mundo tem, então é algo que dou um valor especial. Muitos pontos a favor. Mais do que qualquer olho azul ou músculos bem definidos. Mas se vier acompanhado de um bom par de braços e uma boca perfeita, eu é que não vou reclamar.



por Ká * 4:36 PM

Fala, criatura!:

[Terça-feira, Junho 09, 2009]

Blue eyes

Oito anos atrás era o último aniversário dela. Não lembro ao certo o que fizemos naquele dia. Mas certamente estivemos todos juntos. Os queridos.

Dois meses depois eu faria a viagem que mudou a minha vida. E recebi a visita pela manhã, no dia da partida, dela e dele, amigos inseparáveis. Ela, carregando a cesta de café-da-manhã e aquela sorriso único e radiante no rosto. Estou certa de que aquela surpresa tinha saído da cabecinha dela.

Meses depois, a notícia, o choque, a tristeza que não me passou pela garganta por muito tempo. Carregava aquela falta comigo, numa não- aceitação quase infantil. Mas como engolir o que você não viu, não presenciou?

Faz tempo que não sonho com ela. Mas a lembrança doce está aqui. Hoje me dei conta: dia dela. E me veio um pensamento quase alto: já não se fazem mais pessoas doces como antigamente.




por Ká * 1:30 PM

Fala, criatura!:

[Sexta-feira, Junho 05, 2009]

A menina

Estava com medo, com dores, suando muito. Paredes e lençóis brancos, enfermeira, frio na espinha. Um rosto querido, uma mão firme e aquela voz que reconheço desde meus primeiros minutos nessa vida. Eu tentava tirar força não sei de onde e tentava me concentrar. No entanto, a vontade era de chorar.

Quando o bebê nasceu, o choro copioso veio à tona como sempre vi nos filmes. Mais por alívio e o sentimento de dever cumprido do que por um amor imediato. Olhei pra ela, que sorria e chorava ao mesmo tempo tentando me dizer: é uma menina.

Menina, eu pensei. E em segundos vi toda uma vida que eu teria ao lado daquele ser tão pequeno, dependente de mim, até a fase dela me dizer que me odiava no auge da adolescência – e eu compreenderia. Entretanto, eu sabia que não iria ter nada daquilo. Conformava-me. Eu, que nunca fora pragmática, o havia sido no momento da descoberta. Afinal, não se tratava mais da minha vida, mas da vida de alguém que não tinha culpa de nada.

Ela tentava preparar a câmera e eu pensei que não saberia tirar a derradeira fotografia. E assim foi. Morri com a sensação de ter corrido 10km ao som de minhas músicas preferidas. Entre a imagem do rosto de minha mãe e de minha filha.



por Ká * 5:05 PM

Fala, criatura!:

[Sexta-feira, Maio 29, 2009]

A dança do acasalamento

Cada vez que eles se aproximavam um do outro ia me batendo aquela inquietação. Uma formiga me roendo por dentro, picando meus pontos estimuladores de libido, meus pontos fracos, fortes, medianos. Eu não entendia porquê tanta protelação.

Nunca soube entrar nos joguinhos da conquista. Sempre fui “kamikase”, mas extremamente sincera, sobretudo com meus próprios desejos. E ali, então, com tudo na boca do gol, a espera me causava quase embrulhos no estômago.

E depois ainda me chamam de grossa.



por Ká * 3:36 AM

Fala, criatura!:

[Segunda-feira, Maio 25, 2009]

Na rua, na casa, na fazenda...

Chego em casa, abro a porta, deixo as malas no chão e confiro o cenário ao redor. A temida e anunciada saudade nem bate, nem espera, simplesmente adentra o recinto me atingindo até o gole seco na garganta sair.

Sempre achei que o mais difícil era compartilhar meu cenário, meu roteiro de vida com alguém que se vai. Porque se o cenário é da outra pessoa ou se o roteiro é qualquer um que me seja fora do normal - como uma viagem para outra cidade, um hotel, uma casa de praia - dificilmente estarei ali de novo como protagonista. O fato é que minha casa, minha rua, foi cenário dele, de nós. E aí, como é que não se sente falta daquela parte importante do filme?

Não gosto de saudades, nem sobrevivo de lembranças. No entanto, reconheço quando alguém é digno desse sentimento controverso para mim. Essa mistura de querer e de pesar. Como sempre digo, melhor mesmo é viver. Mas, na impossibilidade disso - pela distância física, nunca emocional – permito-me o sentir falta, a saudade da leveza do sorriso, do carinho demonstrado sem pudores e da pele ardendo a um simples toque.

Deixo-me ir porque vejo naquele horizonte uma salvação para meus céticos olhares cínicos.



por Ká * 9:39 AM

Fala, criatura!:

[Sexta-feira, Maio 08, 2009]

Apaixonada

Quando chego ao fim de um trabalho em equipe sempre bate aquela saudade que vem ao mesmo tempo em que fico satisfeita com o resultado, junto do alívio do dever cumprido. Não é estranho sentir saudade do cansaço, do estresse, da falta de compatibilidade de gênios, da pressão?

Veio-me, dia desses, saudade do cansaço nas pernas e do suor escorrendo pelo pescoço durante os corres de três dias de ForCaos. E a agonia de ser tudo ao mesmo tempo naquelas horas: dar assistência aos hóspedes, conhecer melhor o povo de fora, curtir os shows e querer fazer um trabalho bonito e eficiente. Não é loucura, isso?

Essa semana encerrou-se outro trabalho numa etapa importante de minha vida. Finalmente consegui juntar três paixões minhas: fotografia, cinema e rock’n’roll. E depois de quase quatro meses de dores de cabeça, risadas, raivas, gratas surpresas, novas amizades e, sobretudo, muito aprendizado, tudo deu certo. Foi bonito. E já me bate um comecinho de saudade.

Não é esquisito?

Há esquisitices que só a paixão faz por você.






por Ká * 10:59 PM

Fala, criatura!:

[Sexta-feira, Abril 17, 2009]

Desbravando o habitat alheio

Criamos barreiras no decorrer da vida. Escudos que nos protejam emocionalmente. Nossa espontaneidade sofre censuras, mas não é à toa. Ninguém na vida é inofensivo quando se trata de relacionamentos amorosos. Porque não mandamos em nossos sentimentos. Porque quando não dá, não dá, ponto final. Sem querer ou planejar, viramos a pedra que apedreja muitas vezes. Em outras, viramos o apedrejado. E é nesse momento que o muro vai crescendo ao nosso redor.

Sempre cuidei para não me tornar uma pessoa cínica por conta disso. De fechar a fábrica de sonhos aqui dentro por conta de uma relação dolorosa, de uma decepção ou de um “investimento sentimental” mal-sucedido. E eis que, em menos de dois meses após ter dado um merecido fim a um relacionamento, as mudanças foram claras e significativas em meu comportamento, em minha maneira de ver as coisas, as pessoas. De ver a mim mesma, inclusive. Temi o cinismo que ia crescendo, corrosivo e afiado, em meus comentários e observações.

Mas o mais curioso agora, depois de um bom tempo sozinha e feliz com isso, é perceber uma reversão quase silenciosa. Há pessoas que conseguem quebrar, aos poucos, pedacinhos desse muro de um modo leve e aonde menos esperamos. Sorrateiro e sutil, o desbravador dessa mata na qual nos escondemos chega com um jeito nada parecido com um colonizador. Vem pra fixar residência, nos adotar como novo lar, sem mexer nas características do lugar, gostando dos costumes e cores do nosso ser. E aí, como é que não consegue ultrapassar a cerca elétrica?

Deparo-me com mudanças em mim mesma com uma curiosidade de criança e uma emoção de gente velha. Estar apta a desbravar outros habitats e a mudar de lar é o que não nos deixa envelhecer. Quero essa juventude a vida inteira.



por Ká * 8:50 AM

Fala, criatura!:

[Quinta-feira, Março 19, 2009]

Ar-roubos

Continuo seguindo minhas paixões. Pelo que faço, sinto, pelo que elejo; por tudo, na verdade. A racionalidade divide espaço com o cinismo que tento controlar na medida do possível. Mas nem tudo está perdido. Porque, vez ou outra, certas pessoas conseguem destruir a barreira que construí – ou construíram pra mim - como formiguinhas derrubando montanhas de açúcar. Incansáveis, determinadas e... doces.

Mas eis que... a vida segue seu rumo. Também determinada, incansável. Nada doce. E isso vai de encontro ao que você imagina. Porque, quando se menos espera, lá está você voando com as asas de um sentimento qualquer. Vai entender... Eu é que não. Quero distância disso. Porque errar na terceira vez já se chama burrice.

Só tenho a certeza de que sigo correndo ávida por viver o presente. O que vier a mais que isso é ‘bonus track-live” de alguma banda esquecida pelo tempo. E que ele venha sem piedade, que eu estou vivendo.




por Ká * 4:46 AM

Fala, criatura!:

[Terça-feira, Março 03, 2009]

O carente

A mulher casada que trabalha fora, como todos sabem, acumula tarefas. É o preço que se paga por querer ser independente financeiramente. Chega do trabalho, tem a casa, tem as crianças. Certo (ou não). Mas incluir o marmanjo do marido aí nessa lista é sacanagem.

Eles próprios se metem nessa “veste de incompetência” para cuidar de si mesmo, desde o namoro. Primeiro sugerindo, depois pedindo e mais tarde exigindo atenção e devoção da mulher. Namoradas, atentem para esse tipo de comportamento. Saia correndo dessa relação ou então batam o pé e não cedam. Ou mais cedo ou mais tarde, você terá se transformado numa mistura de babá, professora, enfermeira, psicóloga, terapeuta ocupacional e o que mais a “necessidade especial” dele exigir. Do homem pelo qual você se encantou, de fato, sobrará muito pouco.

Daí me falam depois da primeira saída:

- Tô me sentindo tão sozinho.
- ... ¬¬
- Cuida de mim?
- ... ¬¬


Às vezes o silêncio é a melhor resposta, porque dizer que eu não era assistente social nem enfermeira não ia soar muito bem.




por Ká * 1:42 AM

Fala, criatura!:

[Sábado, Fevereiro 14, 2009]

Solteira

Não quero, nem imponho regras.
Não ando pelos trilhos.
Desconstruo caminhos.
Deixo-me ir.
Se me perco, desespero,
humildemente, a esmo,
a quem me cede racionalidade.
Ao pó, à toa, ao vento.
E eu, ninguém mais.
A mim, nada.
Ninguém,
nem
mais.


por Ká * 6:08 AM

Fala, criatura!:

[Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009]

Aquele mesmo cenário...

Cheguei ao bar, bebi com amigos, ri, falei bobagens, me diverti. Uma pessoa começa a trocar farpas comigo porque critico um famigerado ‘reality show’. Mas a discussão começa a tropeçar e as críticas começam a atacar minha pessoa. Motivo: eu havia tido uma relação amorosa com alguém 8 anos a menos do que eu. Mas a pessoa dizia que eram 10 anos, e ainda dizia que eu não tinha moral para tecer crítica alguma. Esse alguém era mulher, mais jovem do que eu e pretensamente mais “cabeça aberta”, “bicho grilo”, “regional” ou coisa que o valha. A careta da história era eu e também era eu quem quebrava as regras.

Mas que regras? Eu, aos 32 anos de idade, solteira, sem filhos (e sem planos de tê-los), amante de Metal, tatuada, cabeluda e atéia... Eu, esta cearense de 1,60m, caladona e observadora, poderia imaginar qualquer coisa para que me atacassem. Qualquer, eu disse. Menos essa. Porque no século XXI eu iria exigir uma crítica mais apurada, dedos que me apontassem com mais “sustança” e, principalmente, com motivos mais legítimos. Diferença de idade a gente nem vê mais nas novelas globais, recheadas de clichês. Parece, na verdade, uma moda, “coisa chique”, como se diz, coisa de “Caras” e essas superficialidades de mídia especializada em vida de artistas. Nesse caso, se ela tivesse tocado nesse ponto, eu até concordaria com ela. “Puxa vida, é mesmo. Eu sou uma farsa. Tudo isso é para promover minha carreira de modelo-atriz-cantora e minha capa, nua, naquela revista masculina”. Que nada. Eu sou uma anônima. Trabalho por trás das lentes de uma câmera. Cubro-me de cabelos e escondo-me atrás das sombras. Minha meta era ser invisível. E até conseguia, na adolescência. Depois, ficou difícil. Pra ganhar a vida, a gente tem que dar a cara a bater, e é o que tenho feito.

Por isso mesmo, eu não só deixei a cara exposta como a porra de minha calça jeans que foi encharcada por um banho de cerveja. A louca, que estava muito puta por eu ter quebrado as “suas” regras namorando alguém mais novo do que eu (e deixando sua amiga mais novinha às lágrimas), desperdiçou cevada da mais gelada e legítima.

Eu, nada fiz, além de xingar e lamentar. A maturidade tem dessas coisas. Já não queremos nos igualar, descer ao nível de certas pessoas. Gastamos energia em coisas melhores. Como por exemplo, o sexo, que certamente foi um dos motivos que o fizeram (o bendito “jovem”) trocar a “jovenzinha” por uma mulher de verdade.

Eis que voltei a beber lá, lembrei do acontecido e ri muito com meus verdadeiros amigos.



por Ká * 1:19 AM

Fala, criatura!:

[Quinta-feira, Dezembro 04, 2008]

Colcha de Retalhos

Não sou uma pessoa nostálgica. Trato o passado como ele deve ser tratado: com leveza e certa distância. As coisas boas e até mesmo os aborrecimentos tornam-se mais doces do que realmente foram na época. O meu medo sempre foi esquecer do presente para reviver momentos que nunca mais voltarão. Porque as pessoas, assim como o contexto do mundo, mudam. E por mais que se repita o cenário, os atores, o enredo... nunca mais. E ‘nunca mais’ é muito forte pra mim, por isso prefiro viver coisas novas.

Dia desses assisti uma peça que falava de memórias. Dois amigos de muitos anos conversavam e chafurdavam entre as lembranças de cada um. Momentos doces, duros, comoventes, engraçados, de duas vidas que tinham algo em comum: a amizade entre os dois. O quanto de nós um amigo de verdade pode falar? Quanto de nossas experiências está espalhado por aí, pelo mundo, em cada amigo nosso?

Estamos vivos na memória de cada pessoa pela qual passamos e constatar isso me aliviou o peso da falta de certas pessoas em minha vida. Pessoas queridas que, por um motivo outro, já não fazem mais parte de mim. Talvez eu seja alguém completamente diferente nas lembranças delas. Alguém melhor, ou pior. Uma vez encontrei uma velha colega de escola no ‘orkut’ e ela lembrou que eu a criticava e questionava seu hábito de ir pro colégio usando batom. Eu não lembrava disso, mas sorri e me vi como alguém diferente de tudo o que sou hoje em dia. Ainda bem. Porque dezoito anos é um bocado de tempo.

Espalhados por meio mundo, como recortes vivos na vida de milhares de pessoas, talvez sejamos mais doces ou mais amargos do que na verdade somos. Não importa. É como se estivéssemos numa cadeia de micro-histórias da vida privada de cada indivíduo, colaborando para enriquecer suas experiências, assim como pegando um pouco de cada um deles para acrescentar mais sabor e cor às nossas vidas. Uma troca de momentos para a construção da colcha de retalhos que é a vida.


por Ká * 11:28 AM

Fala, criatura!:

[Terça-feira, Novembro 04, 2008]

Merchandising and the city

Meses atrás a mídia do entretenimento, especialmente a feminina, entrou em polvorosa pelo lançamento da película Sex and the city – o filme. Não sou fã da série, apesar de ter visto muitos episódios e me divertido com eles. Aqui e acolá era possível dar um sorriso ou uma bela risada com o sentimento de cumplicidade: coisas que só uma mulher poderia entender. E se o sexo era uma das atrações, certamente a cidade de Nova Iorque também o era. Entretanto, aquele universo “fashion-superficial-estereotipador” nunca me deixou criar a intimidade que tantas mulheres insistem em dizer que têm com as personagens Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte. Nunca me identifiquei com nenhuma delas, para alívio de namorados e amigos meus.

Os estereótipos tão martelados na série sempre me incomodaram, fossem relacionados a homens, gays ou as próprias mulheres. A superficialidade com que as relações eram tratadas também era algo sem graça pra mim e as roupas fashion, bem, isso sim, era mais um motivo para rir. Mas no geral, era algo engraçado e despretensioso – pois aquilo era apenas entretenimento e não uma espécie de “divã televisivo feminino”, como muitas acreditam.

O filme não conseguiu me tirar de casa. Esperei pelo lançamento em dvd e daí o perigo de gastar três reais não seria tanto. Mas foi. Mais de duas horas de uma película cansativa, melosa, até mesmo brega; um roteiro perdido que parecia andar de acordo com os contratos de merchandising do filme. É isso: o filme parece uma daquelas revistas de moda caríssimas e grossas que, quando você folheia, só encontra anúncios de perfumes importados, grifes famosas, fotos de desfiles com roupas que nem no carnaval você sonharia em usar, e pouco, quase nada de texto. Ou seja, sem conteúdo para quem não trabalha exclusivamente com moda e tem algo a mais na cabeça além disso.

É bom lembrar que os estereótipos estavam lá - insultando inclusive uma nação, o México. E, pior, conseguiram tirar a graça das quatro amigas: o bom humor sarcástico. Chegaram a dizer que elas estavam mais maduras e isso refletia nas tiradas e diálogos, numa total falta de discernimento, pois maturidade não tem nada a ver com falta de humor, muito pelo contrário - quanto mais os anos passam, mais rio de mim mesma e da humanidade.

No final, uma pergunta em minha cabeça não queria calar: por que todo final feliz de uma mulher significa um casamento? Com tanto clichê e romantismo barato, matam a vanguardista e multicultural cidade de Nova Iorque de vergonha.



por Ká * 5:50 PM

Fala, criatura!: