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[Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010]
O momento
Sempre dei o devido valor a um bom banho. Nascida nos trópicos, não poderia ser de outra maneira. Sobretudo no Nordeste do Brasil. Banho é sempre bom. De água doce, salgada, caída do céu. Mas banhar-se, realmente limpando o próprio corpo, sempre foi um dos momentos mais prazerosos do dia pra mim.
Um banho pode fazer milagres com uma pessoa. Esfria a sua cabeça num momento de raiva, ou seu corpo num momento de excitação. Relaxa, quando morno, e desperta quando frio. É um dos rituais para curar uma ressaca. Assim como é usado para ser ritual também quando nos preparamos para estar sexy. E eu não poderia esquecer do banho dividido com outra pessoa, para mim, uma das intimidades mais doces entre um casal. Sem falar na mais básica de suas funções: deixar-nos limpos.
Qualquer banho meu é precioso. Vai além das etapas estéticas quase ritualísticas de uma mulher. Sentir a água escorrendo pelo corpo nu me dá um prazer quase infantil. Não é raro soltar a frase mental ou verbalmente: sou uma nova mulher; depois de um banho. Os cabelos molhados batendo na pele e deixando a roupa um pouco úmida, o cheiro do sabonete preferido e do xampu escolhido a dedo, a pele pronta pra receber os cuidados do hidratante de todo dia.
Meus banhos estão limitados. Com o gesso na perna, dificuldades me impedem de estar livre para sentir o gozo de tomar um bom banho. Tudo incomoda: a cadeira, o plástico em volta da perna, a perna esticada, a coluna torta, o quadril dolorido, a perna direita que recebe todo o peso do corpo. Mas, mesmo com todos os empecilhos e a falta de praticidade, a sensação do depois continua a mesma. A importância dos problemas diminui quando sinto-me limpa, cheirosa e linda - sim, o momento que me sinto mais bonita é logo após o banho, ainda de toalha. E é exatamente disso que preciso nesses dias.
por Ká * 4:32 PM
Fala, criatura!:
[Quinta-feira, Janeiro 28, 2010]
"Boa viagem..."
Sonhei que podia voar.
Eu voava e aquilo era uma coisa extraordinária pra mim. Mas era como se fosse totalmente aceitável. Fazia certa força com os braços de vez em quando e, na maioria do tempo, planava apenas. Como se meus braços fossem asas deltas, grandes e leves. Mas eu tinha meu corpo normal.
Parava em uma loja de primeiro andar, num prédio antigo. Via um botton lindo do Dio e quis comprar pra ele. Mas já estava reservado. Pensei que poderia dar o meu, que tenho desde a adolescência. Saía de lá com isso na cabeça.
Saía voando de lá. Literalmente. Rolava a música Carimbador Maluco, do Raul Seixas, e eu ficava cantarolando: "plunct, plact, zum, não vai a lugar nenhum...". Não sabia de onde aquela música da minha infância saía e nem me preocupava com aquilo. Simplesmente aproveitava o passeio e olhava as pessoas lá de cima e elas olhavam de volta pra mim e a maioria sorria.
Continuava voando até que eu chegava numa parte da cidade que eu não podia passar. Só restavam escombros, enormes, como se fossem prédio derrubados por bombas. Eu não conseguiria ultrapassá-los voando baixo. Eu parava e era recebida por um povo, que saíam por trás dos escombros. As pessoas tinham um tom meio em preto-e-branco ou desbotado e usavam roupas dos anos 80, os cabelos, tudo em sua aparência era antigo. Eles me diziam que não podiam cantar nem dançar aquelas músicas do seu tempo. E eu questionava isso pra eles. Eles achavam isso um absurdo. Eu voava mas não podia ir para todos os lugares e não podia questionar aquilo.
Sei que acordei com a música ainda em meus ouvidos. Completei em minha cabeça a parte final: “plunct, plact, zum, pode partir sem problema algum...boa viagem...”. E aquilo foi tão irônico e sarcástico que me doeu. Peguei as muletas e fui ver o que eu conseguiria comer sem ter muito trabalho.
por Ká * 2:37 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Janeiro 26, 2010]
...
O bom humor também tira férias.
Há momentos que o único pensamento é deixar tudo pra lá e zerar a vida. Zero quilômetro. Começo a partir daqui. Ausência de passado, de decisões passadas. De sentimentos já expostos. De fotografias tiradas. Nunca dei aquele abraço. Nem fiz aquela viagem.
Para alguém que nunca teve grandes arrependimentos, estou me saindo uma bela covarde.
Às vezes a coragem pede trégua. Me falta disposição pra provar o contrário.
por Ká * 9:02 AM
Fala, criatura!:
[Quinta-feira, Janeiro 07, 2010]
O bicho.
O amor perde-se em palavras. Por isso prefiro o silêncio. O amor se destrói com o descaso. Por isso mergulho de cabeça. O amor transmuta-se sem o apelo do desejo. Por isso busco por prazer. O amor cansa quando vivemos só o outro. Por isso nunca deixo meus amigos.
Nunca gostei de regras. Mas, sem querer, me vejo com elas, minhas mesmo, guiando sorrateiramente meus passos. Então, me dando conta, dispenso todas elas; variavelmente, alternando, brincando, arriscando minha face. Nada disso me determina de maneira linear, fixa. Nem minha idade, sexo, nacionalidade, grupo social. Quem determina é ele. O amor.
Mas se é verdade que lhe dou tanta bola, também posso dizer que, morto, já não me serve no corpo, no peito, como se fosse feito sob medida como outrora, deixando-me leve, radiante. Ao contrário, me constrange, me inibe. Entristece-me, até, por suas mutações dentro de mim. O amor morto transforma-se em um alienígena, um estranho, algo fora do lugar.
O amor assusta. Até quando não existe mais.
por Ká * 8:00 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Janeiro 04, 2010]
O sonho
Era noite de Reveillon. Estava rodeada de amigos mais que queridos, graciosamente fantasiados. Segurava a mão do amor enquanto olhava o mar à frente e a luz cheia brilhando, danada iluminado o céu. Vestia short, colete, luvas, meia arrastão e botas. Ainda ostentava uma cartola imponente e uma gravatinha atrevida. Trocava presentes de amigo-secreto e amigo-da-onça e falava bobagens. Bebia vodka Absolut e dançava Yuri Popov e Saltimbancos. Beslicava uma bandeja de frios e outras guloseimas. Ria horrores e beijava apaixonadamente.
O melhor de tudo isso? Não foi sonho. Apaguei ao lado dele com um sorriso no rosto que certamente vai surgir - descarado e certeiro - toda vez que eu lembrar do último dia de 2009 e dos primeiros de 2010.
por Ká * 1:07 PM
Fala, criatura!:
[Sexta-feira, Dezembro 25, 2009]
Apertem os cintos, o piloto pode sumir
Relacionamentos são difíceis. De qualquer tipo. Passei um bom tempo fugindo disso, de saco cheio, aproveitando a solteirice, sem ter que ligar pra sentimentos ou reações de outra pessoa, não levar em conta seus gostos, sua personalidade, sua vida. É uma fase necessária. Tudo é você, do seu jeito, no seu tempo. É férias até de você mesmo, principalmente para pessoas que adoram se envolver, ter relacionamentos longos, se jogar de cara e com coração aberto. Assim como eu. Então, conheci meu outro lado. E me surpreendi.
No entanto, parece que até essa liberdade, depois de um certo tempo, abusa, cansa. E então, começamos a olhar mais atentamente pros lados e conseguimos enxergar coisas além de uma noite ou duas e passamos a dividir a atenção: eu – ele -> nós. Vamos entrando nesse novo ambiente pisando em ovos e levando a carga de experiências nas costas. Você nunca fica impune às pessoas que passam por sua vida, nem àquilo que você vive com elas. Seja bom ou ruim.
O fato é que o ruim, muitas vezes, pesa mais do que o bom. Não sei a razão disso, mas é comum agirmos pensando no que vivemos de ruim para saber onde e como pisar. E isso provavelmente nos faz ter atitudes um pouco injustas. Inclusive com nós mesmos. O famoso auto-boicote.
Ainda sinto freios no coração. Cinto de segurança e airbags inclusos. Nessa fase de atitudes e palavras ambíguas, é melhor assim.
por Ká * 7:40 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Dezembro 08, 2009]
Amigo é coisa pra se guardar onde a gente bem entender
Amizade é uma coisa rara. Não segue regras, não há preferências, não escolhe endereço. Também não tem idade. Posso ser muito amiga de uma pessoa que conheço há 20 anos. Mas não são os anos que determinam a qualidade de uma amizade, porque conheço outras há mais tempo que definitivamente não é a mesma coisa. Amizade é construção, sim, os anos de convivência valem pontos, mas o “timing” tem que estar lá como anos atrás. Assim como a sintonia que nos faz nos sentir à vontade para confessar bobagens, para se desarmar diante do amigo.
Amizade forçada não existe. Aquelas pessoas que fazem de tudo pra serem suas amigas, para que você confie nelas. Não acredito. Essas coisas repentinas: do nada aparece alguém te fazendo mil elogios. É batata: é roubada.
Minha falta de paciência com gente que concorda com tudo o que digo é justamente essa ponta de desconfiança. E sigo acreditando que quem gosta de tudo não gosta é de nada. Não adianta se mostrar com maturidade para alguém mais velho, que gosta de cinema para um cinéfilo, que entende de vinhos para um enólogo. Um dia a máscara cai e o ridículo não é o fracasso da tentativa de conquista, mas de se perceber uma pessoa sem personalidade, mesmo acreditando tê-la.
Amizade não precisa de provas, não precisa de alarde. Passei anos pra dizer “eu te amo” para meus melhores amigos. E o bom de tudo é que, mesmo antes disso, eles já sabiam.
por Ká * 5:32 PM
Fala, criatura!:
[Sexta-feira, Dezembro 04, 2009]
Amiga de 30
Parte de minhas saudades daquela cidade é ela. Ninguém entende uma mulher de 30 anos senão uma mulher de 30. Sobretudo, se há uma afinidade, vivência em comum, anos de amizade. Ali, encontro mais do que um simples conforto de alguém me dando razão. Longe disso. Sabemos de nossas falhas e então partimos daí: o que levar em conta, o que reconsiderar; o que relevar?
Conseguimos rir de nossas imaturidades, de nossos defeitos, tantos deslizes. E rir de nossa raiva por ver o que as pessoas esperam de nós: maturidade e racionalidade, sempre. “Racionais MC??? Nem de Rap eu gosto!”
A maturidade tem dessas coisas. Rimos de nós mesmas. E é verdade que ficamos mais seletivas. Só não se sabe os critérios dessa seleção. Cada uma por si, porque, ao contrário do que muitos dizem, somos diferentes, sim.
Mas quando queremos nos divertir, algo se perde do controle habitual. Ou será quando não é apenas diversão? Ah, mulheres... Falo mal, tenho abuso, quero distância. Mas, mulheres perfeitas, pra mim, são as minhas amigas. O resto, que vá ao psiquiatra ou a puta que pariu.
(nada pessoal, somente em homenagem à eterna competição que falam que existe entre nós, como se eles estivessem “salvos” desse mal)
por Ká * 2:02 AM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Dezembro 01, 2009]
Entre o vermelho e o preto e branco.
Meu avô faleceu quando eu tinha uns 12 anos. Foi pouco tempo de convivência. Sobretudo porque morei pouquíssimo tempo em Fortaleza. E a lembrança que tenho dele em plenas férias ou feriados era sua paixão pelo Ceará, time cearense apelidado carinhosamente pela torcida de Vozão. O radinho de pilha, as discussões bobas com os torcedores do Fortaleza, o boteco perto de casa. Eu não sabia nada de futebol além de que bola na rede era gol – anos mais tarde eu soube o que era o impedimento. Mas se eu torcia o ano todo pelo Brasil, nas férias eu torcia pelo time do meu avô também.
Em Natal, tudo o que se referia a esporte e futebol para mim, era o América. É verdade que nunca tive uma grande paixão no futebol, mas o clube era uma referência minha. O Mecão deu grandes alegrias aos torcedores por um bom tempo, indo buscar as camadas mais abastadas de Natal e do estado, os estádios locais voltaram a lotar. Além de ser o time do meu namorado na época e de grandes amigos que faziam parte da Máfia Metal – uma espécie de “sub-torcida” da torcida organizada, a Máfia Vermelha. Ver aquela bandeirona com as cores do América com o Eddie ("mascote" da banda de Heavy Metal Iron Maiden) enorme desenhado nela, balançando no estádio, era uma coisa impressionantemente linda para mim. Um carinho especial é o que tenho por esse time.
Eu, de birra, sempre disse que era Mecão em Fortaleza e Vozão em Natal. Eis que, anos depois, morando na capital cearense, me encontrei num bar ao lado de amigos e outras tantas pessoas torcedoras do Ceará. O time acabara de ter uma vitória merecida contra o Guarani e havia conseguido voltar para a série A do Brasileirão após 16 anos. A festa comeu solta na cidade, era justo e eu estava feliz demais pela conquista do time. Mas, naquela tarde eu estava dividida. Vozão x Mecão. Enquanto um tentava o vice-campeonato, o outro lutava pra não ser rebaixado. “E tu, agora?”, me perguntaram. Eu? Caladinha.
Final de jogo: 0 x 0. Dei o último gole na caipirinha e um suspiro de alívio para aquela indecisão.
(Homenagem aos amigos: Amaudson, Cláudio, Jolson, Rodrigo, Carlos Henrique e Rominho)
por Ká * 5:50 PM
Fala, criatura!:
[Domingo, Novembro 29, 2009]
Escrita à mão
Dia desses escrevi uma carta para uma pessoa querida que mora longe. Há muito tempo não fazia isso. Talvez a última vez tenha sido dois anos atrás, quando resolvi dar notícias pra minha mãe de um modo diferente. Eu me derramava em lágrimas enquanto tentava descrever minha vida em Fortaleza, longe dela. Meu desabafo sempre esteve na escrita.
Sempre gostei de me corresponder. Guardo todas as minhas cartas até hoje. Tenho dezenas delas de amigos variados. Amigos de longe, amigos de perto. Com certeza, as de uma amiga em particular ganham em número, peso e diversificação de assunto. Logo quando ela foi embora de Natal, começamos a trocar cartas enormes enlouquecidamente. Era o auge de nossa adolescência e ela era minha melhor amiga (hoje ela divide esse “título” com outra grande amiga). De modo que havia assunto que não acabava mais. Folhas e mais folhas, enumeradas para facilitar a leitura, recheadas de tinta de caneta e muita história. Chegamos até mesmo a gravar fitas K7 uma pra outra, falando de nossas aventuras e desventuras joviais. Crises existenciais, estudos, família, música, poesia, namoros e até coisas banais como finalmente ter cortado as unhas compridas das mãos.
De tempos em tempos, pego uma ou duas pra reler. Não se trata de nostalgia, longe disso. Mas acho que procuro ali alguma coisa que ilumine meu entendimento comigo mesma, tentando me compreender melhor como sou hoje. E não é com o passado que compreendemos o porquê do presente? É esclarecedor e ao mesmo tempo doce, sempre doce.
Desde que me entendo por gente, escrever me serve de terapia. Lembro que, ainda “pré-adolescente”, já ensaiava palavras com meus pensamentos e histórias de apenas uma menina numa espécie de diário. Leram-no escondido algumas vezes e isso me deixou brava e com vergonha. Após muitos anos, voltei a fazê-lo, mas agora eu mesma me expunha. Na Rede Mundial de Computadores. Com gosto. Não interessa. Serve-me de todo jeito. Entretanto, continuo preferindo receber notícias de pessoas querida à mão. Quase posso sentir o cheiro. Mesmo a milhares de quilômetros.
por Ká * 6:28 AM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Novembro 25, 2009]
Bêbados
Voltando da academia a pé, suada e com a cabeça no almoço e nos afazeres do dia, escuto uma voz repreensiva: Jesus te ama. Quase como um gesto involuntário, sem olhar para o meu interlocutor, rebato: Me dá o telefone dele?! Sigo meu rumo, mas a curiosidade me faz olhar para trás e vejo uma senhora de rosto assustado me condenando com veemência.
Que eu sou atéia, não escondo de ninguém. Tampouco faço alarde aos quatro cantos sobre meu ceticismo. É algo meu que, apesar de não me envergonhar, não o imponho a ninguém demonstrando orgulho como se eu fosse uma pessoa melhor por conta disso. Entretanto, as pessoas crentes em um deus qualquer teimam em ser intransigentes em relação aos outros. Além de impor sua crença aos demais, ainda condenam quem não a segue. Há quem ache que o fato de ser ateu é pior do que ser corrupto, infiel ou ladrão. Porque, na visão deles todos têm o “direito” ao perdão de seu deus. Todos. Com exceção daqueles que não acreditam em sua existência, o que significa um passaporte direto para o inferno.
A ignorância das pessoas ainda me surpreende, sobretudo no que se refere a religião, motivo de milhares de atitudes cruéis, injustas e totalmente descabidas desde os tempos mais remotos. Sua “necessidade” de existir mal se sustenta numa suposta teoria por sua pretensa função de curar e consolar pessoas. Aí me permito utilizar uma frase de George Bernard Shaw, escritor irlandês, que disse que “o fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que o sóbrio”. No que concordo plenamente. Até mesmo quando estou bêbada.
por Ká * 12:00 AM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Novembro 17, 2009]
Alfinetes
A dúvida normalmente não deveria existir. Não agora. Hesito sem grandes razões enquanto caminho, mesmo sem maiores pretensões, desarmada de planos e cenários pré-estabelecidos. Mas quando se trata de sentimentos, quem é que consegue se guiar?
É verdade que aprendemos a ser mais comedidos com o tempo. Nesse tempo de mudança, já tive êxitos ao domar impulsos que meus desejos (não necessariamente carnais) provocaram - e eles sempre haviam vencido. Até agora não sei se valeu a pena. Sei que na hora me senti madura e protegida - de mim mesma. Satisfeita, portanto. Um outro tipo de satisfação, daquelas que só você sente e poderia entender. Porque se eu costumava me jogar em abismos, dando cara e coração a bater, muitas vezes era eu que me batia. E, mesmo que alguma pessoa não me valesse, o amor, sempre ele, valia – talvez por isso não tenha arrependimentos. Mas toda decisão tem seu preço.
Não sei. Nunca sei. Acho que nunca me saberei nesses momentos de quase-entrega. Aquela luta silenciosa com alfinetadas na barriga de mim comigo mesma. Depois de tanta coisa, aprendi a temer.
por Ká * 11:51 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Novembro 09, 2009]
A personagem
Logo depois que cheguei da Espanha, um amigo querido me indicou um filme. Ele se chamava Antes do Amanhecer. A película me remete tão perfeitamente àqueles meses de estrangeira, que sempre que o vejo me emociono.
A parte final do filme, após a despedida, aparecem os mesmos lugares onde os dois haviam passado aquele resto de dia. O parque de diversões, a fonte, o cemitério, ruas com bares, escadarias, pontes. É como se aquelas imagens dissessem: vocês se foram, mas ainda estamos aqui. Estarão ali por muitos anos, sendo cenários de outras pessoas, de outros amores, paixões, aventuras. Cenários de momentos particulares de milhares de pessoas. Aqueles dois eram apenas mais um casal, que se conheceu, viveu e se separou. Não importa muito o tempo que durou. Um dia, duas semanas, um ano. Passou.
Dia desses sonhei que estava de volta a Salamanca. E eu estava radiante por estar ali de novo, tão feliz que quase flutuava ao andar, de tão leve que me sentia. Ao mesmo tempo, algo me puxava para baixo, para terra firme: as lembranças que, de tão boas, agora tinham um gosto meio amargo. A saudade, talvez. E também um quase sentimento de perda por não ver mais os mesmos rostos, os mesmos sotaques diferentes, as músicas que nos embalavam noite adentro. Apenas os mesmos cenários estavam ali, não os personagens.
Somos meros personagens.
por Ká * 4:00 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Novembro 02, 2009]
Menina
Nunca consegui engolir a finitude de quem amo. Nunca sonhei com minha imortalidade. No entanto, meu amor, nosso amor pelas pessoas, deveria ter o poder de lacrá-las em um manto de proteção e vida eterna verdadeira.
Estive no cemitério visitando o túmulo de meus avós e alguns tios queridos. Estive lá com meus pais. Aquele ritual da perda, da dor, do velar. O acender de velas e seus simbolismos de vida e morte. Perdi-me naquelas imagens. Perambulei pelos túmulos discretos, lápides pequenas, nomes, datas de nascimento, de morte, fotografias antigas, outras novas, flores, muitas flores. Até que achamos. E nos fizemos em silêncio.
Mesmo após esses anos, ainda me sufoca ver a falta que minha mãe sente de minha avó. É absurda. É tão visível que sinto junto a minha saudade e a dela, entrelaçadas, engasgando garganta adentro, apertando o peito com vontade. E, me colocando no lugar dela, sofri de pensar de um dia ter que suportar a perda daqueles que me colocaram nesse mundo.
Alguns dias com eles - coisa rara entre nós nessa correria, nessa distância, nessa falta de tempo – no meu mundo, em minha casa, sempre a postos. E ao voltar do aeroporto há pouco, me bateu um sentimento sufocante de não tê-los mais aqui comigo. Uma saudade prematura e quase infantil perturbando minha praticidade de quem mora sozinha.
Hoje vou dormir menina.
por Ká * 6:54 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Outubro 27, 2009]
A descrença
É um problema conseguir acreditar nas pessoas. Há as conveniências, o disfarce, os interesses, os jogos, as dissimulações. Queremos acreditar, mas não podemos. Não conseguimos desarmarmo-nos livremente. Somos impedidos pelo receio de um embuste qualquer. Ou simplesmente de fazer papel de palhaço abrindo a guarda pra quem não se deve. E junto com os anos de experiência, vem a descrença, o ceticismo diante de palavras gentis que nos soltam. Tudo isso porque já nos deparamos com muitos "pelés" mundo afora.
O maior medo é cair no inferno do amor, que todo mundo sabe que é cego, surdo e manco. E só percebemos isso quando saímos desse estado quase de inércia. Olhamos de longe aquela nossa imagem e não nos reconhecemos. Nem ao ex-objeto de amor. Não sabemos como diabos fomos nos apaixonar por aquela pessoa. Não é cuspir no prato em que comemos, é simplesmente não saber o porquê escolhemos o prato do menu.
Então, procuramos nos defender até mesmo das coisas boas, sem saber. Desconfiados, damos patadas, insistimos nos muros. Eu bem sei disso. E mesmo assim, não consigo evitar. Porque antes uma patada no outro do que em mim mesma.
por Ká * 11:14 PM
Fala, criatura!:
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