|
[Sexta-feira, Maio 18, 2012]
Pausa para sentir
A saudade chega, a gente disfarça, a correria atropela e o dia passa.
A saudade retorna, com ares de cachorro abandonado, como quem não quer nada. Invade rotinas, horários, compromissos. Entre uma espera no consultório e a pausa entre capítulos do livro, ela volta, como se dissesse: ainda estou aqui.
Mas a vida anda, corre, comprime as têmporas, acelera pausas, encurta o sono. Ela derruba o que estiver pela frente ou pelos arredores – como a desprezada saudade. Seja qual for o compromisso: o trabalho para terminar ou o aniversário da amiga querida, a vida não exige, ela determina o tempo. E tempo, todo mundo aprendeu, vale ouro.
Eis que a saudade sobrevive, independente de nossa atenção, porque ela é prima da esperança, de quem já disseram ser a última que morre e normalmente não somos nós a determinar esse fim. Mas a saudade, insistente e não adepta do amor-próprio, essa eu sei, morrerá tão somente quando eu, sua hospedeira eterna, finalmente a satisfizer.
Enxergo um fim próximo, para alívio da saudade - mesmo sabendo que, após todo fim, existe um recomeço.
por Ká * 8:10 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Abril 09, 2012]
O corpo fala
Não basta apenas querermos. É preciso dizer a que viemos. E eu disse. Não somente com o desarme e o sorriso. Mas também com o decote e os cabelos soltos.
Poderia ter saído tudo errado. Mas o risco, meus caros, esse causador de frio na barriga, também pode ser aquele pontapé que faltava para algo maravilhoso. E, se não, que seja mais uma história divertida para contar entre queridos amigos.
por Ká * 12:49 PM
Fala, criatura!:
[Quinta-feira, Abril 05, 2012]
O vinho
Naquela abertura de pernas, convidei-lhe a mão a passear sem procurar entender como o desejo havia batido numa hora como aquela.
Não lhe detive os dedos, mas evitava o olhar. Porque, se me sentia segura e forte despida, com roupas, sentia-me vulnerável, frágil. Mas de uma fragilidade feminina, com gestos carregados de pudores de uma criação católica castradora.
O olhar, entretanto, fora substituído pelo tato, cheiro e sabor, numa mistura dionisíaca de pele úmida e vinho tinto seco.
por Ká * 5:03 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Março 13, 2012]
A faxina
Para entulhos do passado, que vez ou outra pelejam voltar em forma de poeira trazida pelo vento, seja objetivo: pegue a vassoura, o balde com água, o rodo e se encha de coragem.
Amarre os cabelos, arregace as mangas da camisa e esteja disposta a suar. Você se livra da sujeira e, de quebra, ainda gasta algumas boas calorias.
Pode ser ao som do cd mais animado ou, quem sabe, o mais agressivo. Mas aquele que você sabe as letras de cor sempre ajuda no processo desinfetante.
Depois de tudo aquilo, nada mais importa, minha cara. Apenas você e aquele sorriso de satisfação em saber que tudo já tinha descido pelo ralo, tempos e tempos atrás.
Mas não custava nada se certificar disso.
por Ká * 8:59 PM
Fala, criatura!:
[Quinta-feira, Março 08, 2012]
Tradução
Hoje é 8 de março. É um dia como outro qualquer, quando uso meus adereços que se combinam entre força, persistência e fé em mim mesma - e no outro ao lado. Quando é na imagem pura - corpo despido e rosto lavado – que me sinto verdadeira e feminina. Quando driblo com bom humor maus motoristas e a má educação que tentam me tirar a leveza. Quando o encantamento com a ciência me abre sorrisos infantis enquanto rabisco anotações. Quando minha corrida vai além dos calcanhares; assim como o prazer que chega mais sublime do que a endorfina, enquanto o suor desce pelo corpo.
É no cotidiano que nos construímos como mulher. E toda construção deixa sujeira, pó, entulho. Mas como a chuva lava o mundo, nossos líquidos nos lavam e nos renovam. Acontece que, entre hormônios que atiçam e a lua cheia que seduz, eu preciso admitir: não é a lágrima emotiva, o suor que desliza entre os seios, nem o sangue mensal que me traduzem como mulher. Mas a saliva que me umedece a boca, entre pausas de sorriso, quando tento falar o que sinto, enquanto me misturo naquele que amo.
por Ká * 2:12 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Março 05, 2012]
O momento
As prioridades pedem passagem: furando a fila, roubando a vez dos nossos desejos. Não adiam de propósito o sorriso e o beijo; visto que esses, sim, não têm data, hora, nem local marcado. Elas simplesmente adicionam mais prazer aos preciosos momentos em que somos só querer. E, se já quero agora, é porque o momento já começou.
por Ká * 4:08 PM
Fala, criatura!:
[Sábado, Março 03, 2012]
Solidão é preciso
A mídia enche nossas cabeças de sonhos de plástico. Além de não serem vivos, ainda ficam entulhados como lixo, entupindo nossos bueiros. Uma das coisas mais enganosas que se propaga é que só podemos ser felizes acompanhados. Família grande, muitos amigos, um amor ao lado, filhos, netos, colegas, vizinhos. Estar sozinho é sinal de incompetência, inapetência para ser querido, sinal de infelicidade. Uma mentira. Grande e cruel mentira.
Fazem-nos esquecer de que a pessoa mais importante de nossa vida somos nós mesmos. E isso não tem nada a ver com egocentrismo. A importância é devido à nossa própria sobrevivência, seja ela física, mental, emocional ou de qualquer outra natureza. Sobretudo para poder se relacionar de modo saudável com os demais.
É preciso gostar de si. E para que o gostar seja possível, é imprescindível se auto-conhecer. Não é fácil, muito menos isento de dor, mas temos toda a vida inteira para treinar a si mesmo. E só conseguimos verdadeiramente fazê-lo de maneira eficiente quando nos encontramos sós.
Nascemos sozinhos e morremos da mesma forma. Talvez com alguém ao lado ou não. Mas nossa experiência é única e intransferível, assim como a dor, como o prazer. A solidão só faz medo a quem não se conhece. Senão, você sabe do que falo, é essa sensação de paz e segurança que talvez só tenhamos sentido no ventre de nossa mãe.
por Ká * 7:33 PM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012]
Efeito borboleta
É quando você começa a entender que uma ação causa uma reação que a vida de fato se inicia. Se você chorar, aquela que te alimenta vai aparecer, vai te amamentar, dar colo ou trocar sua fralda. Tentou ficar em pé, pode cair. Não esperou esfriar, vai queimar a língua. Esses pequenos aprendizados continuam, cada vez com mais complexidade, até que você pare de respirar. Porque a gente sempre pode aprender qualquer coisa nessa vida.
Mas às vezes as pessoas não conseguem assimilar de maneira eficiente o que se passa em sua frente, por mais simples e escancarado que seja. Suas atitudes interferem em sua própria vida, disso ninguém duvida. Mas também podem atingir a dos outros.
Uma das coisas mais lógicas que dou como exemplo é sobre o péssimo hábito de jogar lixo na rua. Eu tento acreditar que aquelas pessoas que já vi jogarem lixo pela janela do carro ou do ônibus à minha frente desconhecem que aquilo é muito mais do que sujar a rua. É colaborar para entupimentos de bueiros, atrapalhando mais ainda a vida de todos em dias de muita chuva. É atrapalhar o trânsito de pedestres pelas calçadas, de ciclistas pelas ruas. É aumentar a possibilidade de presença de bichos como moscas, ratos e baratas, transmissores de doenças. E que seu ato definitivamente não está colaborando para que o gari mantenha seu emprego, mas atrapalhando e piorando seu dia de trabalho, pois ele não é seu servente.
Agora, o que eu não imagino mesmo são essas mesmas pessoas fazendo isso em sua casa, seu quintal, seu jardim.
Realmente é egoísmo não cuidar do bem coletivo. Mas é tirar atestado de burrice achar que aquilo nunca lhe afetará.
por Ká * 2:57 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Fevereiro 14, 2012]
O treino
Não tem jeito. Eu, que era adepta da luta contra a distância, vejo agora como todos os detalhes da convivência quase diária são importantes. Eles agem como vigas fortalecedoras, servindo de base de um relacionamento. Não deixam lacunas, espaços, por menores que sejam, a serem preenchidos por terceiros (que podem ser pessoas ou aborrecimentos do dia-a-dia).
A paixão arrebata, é verdade. Ela tira a gente do chão, do sofá, da comodidade, arranjando força e coragem não sei de onde para vivê-la intensamente. Esse ímpeto encanta, é o ponta-pé inicial de tudo. Mas, da mesma maneira que ela chega, feito um furacão, também se vai. E, muitas vezes, mal entendemos como ela aconteceu.
Mas o amor se constrói desde a fase da paixão. E precisa ser de ambos os lados, simultaneamente e em doses homeopáticas. Porque, se a falta de cuidado seca qualquer sentimento, o excesso faz transbordar, sufoca. Não pode ser insuficiente nem sobrecarregado, como o santo exercício físico: hábito diário e moderado o suficiente para fazer bem, sem causar lesões.
Dei-me conta que tudo na vida é questão de treino: nossa capacidade física, intelectual e emocional. Não nascemos com manual de instruções. Nem totalmente construídos.
por Ká * 2:56 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Fevereiro 07, 2012]
Ponteiros
Há pessoas que são como vampiros, que nos sugam o que há de melhor em nós. O sorriso vira assinaturas de fotografia, fazendo-nos desconhecer a nós mesmos.
Também há pessoas que despertam o melhor de nós. A graça, o brilho, a serenidade, a segurança, a coragem.
Diferenciar esses dois tipos de gente, que vez ou outra surgem em nossa vida fantasiados de diferentes formas, é um enigma. O primeiro engana, sabe-se lá por quanto tempo. O segundo, nós que nos enganamos, já mais duros e desconfiados.
Mas há ainda o tempo embalando tudo isso. O tempo do mundo, o tempo do outro e o nosso tempo particular. Entre ajustes de ponteiros, pode haver Jet Lag,com direito a mal-estar, insônia, algo fora do lugar. Mas também é possível encontrar uma sintonia, naturalmente, com a leveza da areia atravessando a ampulheta.
Por via das dúvidas, ajustemos nosso próprio relógio, antes de sair de nossa casa.
por Ká * 7:16 PM
Fala, criatura!:
[Terça-feira, Janeiro 31, 2012]
Selo de qualidade
Não dou mais bola para mágoas. Há tempos determinei que elas tivessem um curto limite de vida dentro de mim. Esperto é quem nunca as deixa em cima do muro, espreitando cada passo seu, analisando cada atitude sua, num exercício de auto repetir-se, reproduzindo o mal estar, a dor. Atraso de vida. E atrasos de vida, para mim, sempre soaram como um adiantamento de nossa morte.
Também entre pessoas, há que se fazer escolhas, ter predileções, impor limites, selos de qualidade. Acontece que todos nós erramos. Há aqueles que são muito mais do que seus erros. E outros, simplesmente não valem a pena. Porque, definitivamente, não é todo sorriso que é um passo para amizade. Nem, muito menos, qualquer beijo resulta em amor.
Certas atitudes servem como características que determinam passar ou não no seu teste do Inmetro. Sem o selo, meus caros, digam o que quiserem depois, nada dali te afetará. Você não vai comprar gato por lebre. Não daquele vendedor de sonhos de açúcar e sorrisos de papelão.
por Ká * 2:42 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Janeiro 09, 2012]
Antes do fim
Não uso fita métrica.
Nem discuto relacionamentos.
Observo vazios, preencho espaços,
enquanto vivo o momento.
Mas recuso-me a viver medindo abraços.
A falta deles é quem me diz adeus,
Com ares melancólicos
E muito antes do que o teu.
por Ká * 7:57 PM
Fala, criatura!:
[Quarta-feira, Janeiro 04, 2012]
Segunda pele
Mulheres têm essa relação multifacetada com lingerie, tão íntima e pessoal quanto nosso próprio corpo, numa variedade de cores, tamanhos, materiais, funções e modelos. Embora ninguém a veja, sabemos que ela está lá, protegendo as partes mais escondidas, enfeitando com flores, laços e até pedrinhas que iluminam onde muitas vezes a escuridão prevalece. Algumas preenchem decotes ou puxam nos lugares certos. Outras, como o batom nos realça os lábios, sutilmente nos aprimoram as carnes, as formas, que trespassam o que diabos estivermos vestindo, despertando olhares, entortando pescoços. São as melhores.
Esse tipo de lingerie veste o corpo e deixa rastros em nós mesmas. Mais do que melhorar o que já temos, nos muda o semblante, o andar, a jogada de cabelos, a cruzada de pernas. É como se o poder desses pequenos pedaços delicados de pano, além de atiçar o olhar alheio, ainda nos fizesse aflorar mais nossa sensualidade. Como se guardássemos um segredo precioso e para raros observadores, enquanto nos divertimos na embriaguez do pelo roçando em seu tecido fino, delicado. Um ritual que antecede até mesmo as maravilhosas preliminares.
Eis que, cá estava eu pondo ordem na gaveta mais bonita e cheirosa do quarto, e peguei-a pelo laço negro. Visto que tanto mudei, aquela pequena calcinha provavelmente adquiriu outro sabor, assim como eu. O bom de investir em boas lingeries não é posar para o espelho, admirando-se na solidão do quarto, mas tê-las inteiras para quem nunca as viu – pensei alto. Porque linda e inédita tenho que ser eu.
por Ká * 11:13 PM
Fala, criatura!:
[Segunda-feira, Dezembro 26, 2011]
Embriaguez
Que o amor embebeda, não tenho dúvida. Embriaga, diluindo o bom senso em gotas de saliva, em gotas de suor. Ah, meus caros, eu nem sei de quantas gotas se fazem um amor.
Só sei que sou feita de desejos; desses, aqueles outros. E todos desembocam naquele rio que deságua no abraço do moço que me desarma sem mal se aperceber do próprio feitio.
Que tudo seja eterno nesse pequeno espaço de tempo. E se acabo, visto que sou finita, que eu permaneça em sorriso - seja em versos ou em fotografias em preto e branco.
por Ká * 3:32 AM
Fala, criatura!:
[Domingo, Dezembro 11, 2011]
Subjetiva
O amor acontece no acaso, no esbarro, na coincidência. Não se planeja o amor. Não se conhece sua arquitetura, seus meandros, seu mapa. Entretanto, é possível planejar-se, cuidar de si, preparando-se para acasos (bons ou ruins), aprendendo a diferenciar o joio do trigo, a eleger para si o que faz bem, o que descomplica a vida, tornando-a menos dura.
É preciso saber a pôr pontos finais, retirar-se de cena, assim como deixar-se ir, correr riscos. Muito a ver com maturidade, esse exercício não tem fim, aprende-se sempre, aperfeiçoamo-nos.
Cheio de subjetividade, o amor arrebata e, de longe, o percebemos sem sabermos explicar que é ali onde devemos ir. Porque tudo fica mais claro quando nos elegemos como prioridade. Caso contrário, nunca seremos parte das prioridades de alguém.
por Ká * 10:57 AM
Fala, criatura!:
|